CET do financiamento imobiliário: o que é e como comparar
O que entra no CET do financiamento imobiliário pela Resolução CMN 4.881/2020, como ler a planilha do banco e um exemplo calculado em que a menor taxa perde.
Resumo rápido
- O CET (Custo Efetivo Total) é a taxa anual que soma juros, seguros, tarifas, tributos e outras despesas do financiamento.
- A Resolução CMN 4.881/2020 obriga o banco a informar o CET antes da contratação, com planilha que mostra cada componente em reais e em percentual.
- Índices de preços e taxas flutuantes, como o IPCA, ficam fora do CET. Por isso, CET de linhas com indexadores diferentes não se compara direto.
- No exemplo calculado, uma proposta com taxa 0,30 ponto menor teve CET maior por causa de seguro e tarifa.
- No SFH, juros e encargos financeiros têm teto de 12% ao ano, mas seguros e tarifas ficam fora desse limite, então o CET pode passar disso.
O CET (Custo Efetivo Total) é a taxa anual que mostra quanto o financiamento custa de verdade, somando juros, seguros, tarifas, tributos e outras despesas cobradas de você. A Resolução CMN 4.881/2020, do Conselho Monetário Nacional, obriga o banco a informar o CET antes da contratação, com uma planilha que detalha cada componente. Ele é o número certo para comparar propostas, com uma condição: as propostas precisam ter o mesmo valor, prazo, sistema de amortização e indexador. Índices como TR e IPCA ficam fora do cálculo, e isso muda a forma de comparar linhas diferentes.
O que a Resolução CMN 4.881/2020 exige
A resolução, de 23 de dezembro de 2020, está em vigor desde 1º de fevereiro de 2021 e substituiu a antiga Resolução 3.517/2007. Os pontos que interessam a quem vai financiar, resumidos com as nossas palavras:
- Quem informa e para quem: bancos e financeiras, para pessoas físicas e para micro e pequenas empresas.
- Quando: antes da contratação, junto com a planilha de cálculo. Peça o CET na proposta, antes de assinar, e não só no contrato.
- Como: em taxa percentual anual, com duas casas decimais.
- Planilha: precisa mostrar o valor em reais de cada componente, o percentual de cada um sobre o total devido e a soma das parcelas. O banco precisa guardar esse demonstrativo por pelo menos cinco anos depois de entregá-lo.
- No contrato: o CET aparece em destaque.
- Na publicidade: sempre que o anúncio mostrar a taxa de juros, deve mostrar também o CET.
O Código de Defesa do Consumidor reforça a regra. O art. 54-B exige que o fornecedor informe, na oferta de crédito, o custo efetivo total e a descrição dos elementos que o compõem, e o art. 52 garante a liquidação antecipada com redução proporcional dos juros.
O que entra e o que fica fora do CET
| Entra no CET | Fica fora do CET |
|---|---|
| Juros do contrato | Variação futura da TR |
| Amortização do valor emprestado | Variação futura do IPCA ou de outro índice de preços |
| Seguros MIP (morte e invalidez permanente) e DFI (danos físicos ao imóvel) | Taxas flutuantes, como CDI |
| Tarifa de avaliação do imóvel e outras tarifas cobradas | Gastos que não são cobrados pelo banco nem vinculados à operação |
| Tarifa de administração mensal, se houver | |
| Tributos vinculados à operação | |
| Serviços de terceiros contratados pelo banco e pagos por você |
Dois detalhes que costumam gerar dúvida:
- IOF: o Regulamento do IOF (Decreto 6.306/2007, art. 9º, I) isenta as operações de crédito para fins habitacionais. Em financiamento de imóvel residencial, por isso, ele não costuma aparecer. Em imóvel comercial, há cobrança.
- ITBI e registro: são despesas da compra do imóvel. Se o banco os financia junto, como alguns fazem, os valores entram no fluxo e afetam o CET. Se você paga por fora, não entram, mas continuam sendo custo seu. Veja os custos para comprar imóvel.
Como o CET é calculado
O CET é a taxa que iguala o valor que você recebe de fato a tudo o que você vai pagar, cada pagamento descontado pela sua data. A resolução define a fórmula com dias corridos e ano de 365 dias.
Na prática:
- Parte-se do valor líquido liberado. Se o banco empresta R$ 400 mil e você paga R$ 3.200 de avaliação na assinatura, o valor de partida é R$ 396.800.
- Montam-se todos os pagamentos mensais: amortização, juros, seguros e tarifas de cada mês.
- Encontra-se a taxa anual que faz a soma dos pagamentos, trazidos a valor presente, bater com o valor liberado.
É por isso que o CET é sempre maior que a taxa de juros quando há seguros e tarifas. O próprio Bradesco mostra isso em exemplo ilustrativo no site: taxa efetiva de 9,5% ao ano, cliente de 30 anos, R$ 200 mil em 360 meses no SAC, CET de 10,43% ao ano.
Exemplo calculado: a menor taxa nem sempre ganha
Exemplo ilustrativo
Duas propostas para o mesmo financiamento: R$ 400 mil de um imóvel de R$ 500 mil, 420 meses, SAC, comprador com a mesma idade. Taxas e valores de seguro escolhidos só para ilustrar, sem relação com um banco específico. Cálculo feito em Python, com fluxos mensais e taxa anualizada, sem TR.
Premissas:
- Proposta A: 10,90% ao ano. MIP de 0,025% ao mês sobre o saldo devedor, DFI de 0,008% ao mês sobre o valor do imóvel, sem tarifa mensal.
- Proposta B: 10,60% ao ano. MIP de 0,040% ao mês, DFI de 0,010% ao mês e tarifa de administração de R$ 25 por mês.
- Nas duas: tarifa de avaliação de R$ 3.200 paga na assinatura.
| Item | Proposta A | Proposta B |
|---|---|---|
| Taxa de juros | 10,90% ao ano | 10,60% ao ano |
| Primeira parcela de juros e amortização | R$ 4.415,91 | R$ 4.324,85 |
| Seguros e tarifa no 1º mês | R$ 140,00 | R$ 235,00 |
| Primeira parcela completa | R$ 4.555,91 | R$ 4.559,85 |
| Juros no contrato inteiro | R$ 729.073,63 | R$ 709.904,43 |
| Seguros e tarifas no contrato inteiro | R$ 37.850,00 | R$ 65.180,00 |
| Total desembolsado (com avaliação) | R$ 1.170.123,63 | R$ 1.178.284,43 |
| CET | 11,53% ao ano | 11,58% ao ano |
A proposta B tem taxa 0,30 ponto menor e economiza R$ 19 mil em juros, mas perde R$ 27 mil em seguros e tarifa. No fim, custa cerca de R$ 8 mil a mais, e o CET mostra isso.
Quanto cada componente pesa
Ainda na proposta A, decompondo o CET:
| Cenário | CET |
|---|---|
| Só juros | 10,90% ao ano |
| Juros e avaliação | 11,03% ao ano |
| Juros e seguros | 11,40% ao ano |
| Juros, seguros e avaliação | 11,53% ao ano |
Os seguros, neste exemplo, acrescentam meio ponto ao custo (de 10,90% para 11,40%). Para um comprador mais velho, o MIP é maior e o efeito cresce. É por isso que trocar de seguradora pode valer a pena; veja seguros MIP e DFI.
Na planilha que o banco entrega, a proposta A apareceria mais ou menos assim, em percentual do total devido: juros 62,31%, amortização 34,18%, seguros 3,23% e avaliação 0,27%.
Como ler a planilha do CET
Quando a proposta chegar, procure:
- O CET anual, com duas casas decimais. Se só houver taxa de juros, peça o CET.
- O valor liberado. Confira se é o valor que você precisa ou se já desconta tarifas.
- A lista de componentes em reais: juros, seguros, tarifas, tributos, despesas de terceiros.
- O indexador. TR, IPCA ou nenhum. Lembre que ele não está no CET.
- As premissas do seguro: idade considerada e seguradora. Se a idade estiver errada, o CET está errado.
- As condições da taxa. Se a taxa depende de salário na conta ou de outros produtos, o custo desses produtos em geral não está no CET. Some à parte.
- A data e a validade da proposta. O CDC exige validade de pelo menos 2 dias para a oferta.
Comparando CET de linhas diferentes
O CET só compara bem propostas com o mesmo indexador. Nos outros casos:
- TR contra TR: compare o CET direto. A TR é a mesma para todos os bancos.
- TR contra IPCA: o CET da linha com IPCA fica mais baixo porque a inflação está fora. Some uma estimativa de inflação à parte fixa (por exemplo, a dos últimos 12 meses) e veja a parcela em cenários. O guia do financiamento no Inter, que usa IPCA, mostra essa conta.
- TR contra poupança: a parte variável da poupança também fica fora. Com a Selic acima de 8,5% ao ano, como em outubro de 2026, a poupança rende 0,5% ao mês mais TR, e o custo real fica bem acima do que o CET sugere.
- SAC contra Price: o CET de um e de outro pode ficar parecido, porque é uma taxa, mas o total pago na Price é muito maior. Compare também o total desembolsado. Veja SAC ou Price.
O teto do SFH
No SFH (Sistema Financeiro da Habitação), que cobre imóveis avaliados em até R$ 2,25 milhões desde a Resolução CMN 5.255/2025, a Resolução CMN 4.676/2018 (art. 13) fixa um custo efetivo máximo de 12% ao ano. Atenção ao que esse teto cobre: juros, comissões e outros encargos financeiros. Seguros e tarifas ficam de fora, e a TR, por ser atualização do saldo, não é tratada como juros.
Por isso, um CET acima de 12% não significa, sozinho, que a proposta descumpre a regra: no exemplo acima, os juros são de 10,90% e o CET passa de 11,5% só por causa de seguros e avaliação. O que não pode passar de 12% é a parte de juros e encargos. Se a taxa de juros efetiva da proposta já estiver acima disso, pergunte ao banco se o contrato está mesmo no SFH ou foi feito a taxas de mercado, fora dele. Acima do teto de valor, no SFI, não há limite. Veja SFH e SFI.
Erros comuns
- Comparar taxa de juros em vez de CET. O exemplo acima mostra como isso engana.
- Comparar CET de prazos diferentes. Tarifas fixas pesam diferente em 20 e em 35 anos.
- Esquecer que TR e IPCA estão fora. O CET é o custo mínimo, não o custo final.
- Ignorar o pacote de produtos. Seguro de vida, capitalização ou cartão exigidos para a taxa menor custam dinheiro todo mês.
- Não pedir a planilha. Ela é direito seu e mostra onde está o custo.
Resumo e próximos passos
- O CET soma juros, seguros, tarifas, tributos e despesas vinculadas em uma taxa anual, e deve ser informado antes da contratação (Resolução CMN 4.881/2020).
- Índices como TR e IPCA ficam fora. Compare CET entre propostas com o mesmo indexador.
- Uma taxa menor pode ter CET maior por causa do seguro e das tarifas.
- Peça a planilha completa em cada banco e siga o roteiro de como simular e comparar propostas. Para entender a taxa de juros em si, veja taxa de juros do financiamento imobiliário.
Perguntas frequentes
O que é CET no financiamento imobiliário?
É o custo total do financiamento expresso em uma taxa anual. Ele soma juros, seguros obrigatórios, tarifas, tributos e despesas pagas a terceiros vinculadas à operação, e é calculado sobre o valor que você efetivamente recebe.
O CET inclui a TR ou o IPCA?
Não. A Resolução CMN 4.881/2020 manda deixar taxas flutuantes e índices de preços fora do cálculo, embora eles precisem constar na planilha. O CET mostra a parte fixa do custo.
O banco é obrigado a informar o CET?
Sim. O banco deve informar o CET antes da contratação, junto com a planilha de cálculo, e ele deve aparecer em destaque no contrato e em anúncios que mostrem taxa de juros. O Código de Defesa do Consumidor também exige essa informação na oferta de crédito.
Qual CET é bom para financiamento imobiliário?
Não existe número fixo. O que importa é comparar o CET de propostas com o mesmo valor, prazo, sistema e indexador. No SFH, juros e encargos financeiros têm teto de 12% ao ano, mas esse teto não inclui seguros e tarifas, que entram no CET.
Fontes consultadas
- Resolução CMN 4.881, de 23/12/2020 (Custo Efetivo Total)
- Código de Defesa do Consumidor, Lei 8.078/1990, arts. 52 e 54-B (texto compilado)
- Decreto 6.306/2007, Regulamento do IOF, art. 9º, I (texto compilado)
- Bradesco: Bradesco Imóveis, exemplo de CET (página oficial, consultada em 19/10/2026)
- Resolução CMN 4.676/2018, art. 13 (custo efetivo máximo de 12% ao ano no SFH e exclusões)
- Resolução CMN 5.255, de 10/10/2025 (teto de avaliação do SFH em R$ 2,25 milhões)
- Banco Central: taxas de juros por instituição financeira
Conteúdo informativo, revisado em 19 de outubro de 2026. Regras, taxas e valores mudam: confirme as condições com o banco, o cartório ou um profissional antes de decidir. Encontrou um erro? Avise a gente.